
Desde a publicação do SMPTE ST 2110 em 2017, a indústria de broadcast tem experimentado uma verdadeira transformação. O padrão tornou-se a base das novas infraestruturas de produção e distribuição, permitindo abandonar as limitações do SDI e adotar ambientes mais flexíveis, escaláveis e centrados em software. Hoje, a maioria das novas instalações já nasce com base no ST 2110, e praticamente todos os grandes fabricantes do setor o adotaram em suas soluções.
Embora para muitos o ST 2110 ainda pareça uma novidade, o trabalho de padronização começou em 2013, com o objetivo de definir uma maneira comum e estável de transportar mídia profissional sobre redes IP. Ao lado das especificações NMOS da AMWA — como IS-04 (descoberta e registro) e IS-05 (gerenciamento de conexões) —, o ST 2110 tem sido essencial para consolidar um ecossistema interoperável e confiável.
Segundo John Mailhot, SVP de Product Management da Imagine Communications, a chave desse sucesso está na estabilidade: “O ST 2110 e seus complementos evoluíram a ponto de permitir que desenvolvedores e arquitetos trabalhem com segurança, sabendo que estão construindo sobre uma base sólida. Isso é essencial para promover inovação por parte dos fabricantes e confiança por parte dos compradores”.
Com a transição IP consolidada nas operações on-premises, o setor agora enfrenta um novo obstáculo: como expandir os fluxos IP para ambientes em nuvem. A movimentação de mídia dentro de uma instalação baseada em ST 2110 é hoje bem compreendida — o verdadeiro desafio está em conectar essas instalações ao mundo cloud.
Perguntas como “qual é a melhor maneira de trocar sinais em tempo real entre instâncias em nuvens diferentes?” ou “como coordenar fluxos de trabalho que envolvem infraestrutura física e pública ao mesmo tempo?” estão no centro da discussão atual. Diversas entidades, como a SMPTE, AMWA e o Video Services Forum (VSF), têm direcionado esforços para harmonizar os ambientes on-premises e cloud, permitindo interoperabilidade e orquestração em sistemas híbridos.
Um dos resultados mais significativos é a recomendação técnica VSF TR-11, publicada em 2024. O documento estabelece princípios para transporte de sinais e sincronização entre workflows em solo, entre nuvens e da nuvem de volta para instalações locais. Ele define como sinais de áudio, vídeo e metadados devem ser trocados entre sistemas tradicionais (baseados em tempo linear) e novas aplicações cloud-native (não-lineares em tempo), preparando o terreno para a próxima geração de produção ao vivo e playout distribuído.
Paralelamente, a EBU (União Europeia de Radiodifusão) desenvolveu, por meio da Linux Foundation, o projeto Media eXchange Layer (MXL) — uma camada de interconexão open-source que permite a integração de elementos dentro de um fluxo de trabalho, seja na nuvem ou localmente. Está em andamento o alinhamento entre o TR-11 e o MXL, para estabelecer regras comuns em arquiteturas complexas e multivendor.
Implantação, interoperabilidade e segurança
Além da questão técnica, o setor enfrenta os desafios práticos da implantação de sistemas baseados em software em ambientes distribuídos. Embora o setor de TI já possua ferramentas consolidadas para orquestrar e gerenciar esse tipo de operação, as demandas de broadcast são únicas — com requisitos rígidos de temporização, comportamento determinístico e controle preciso entre soluções de múltiplos fornecedores.
Nesse contexto, é essencial adaptar ou especificar ferramentas de TI para uso em mídia. Isso inclui definir expectativas comuns sobre como, os microserviços de broadcast devem expor suas interfaces, quais políticas de autenticação devem ser adotadas, e como essas soluções podem ser implementadas com facilidade, sem exigir integração personalizada em cada projeto.
À medida que as emissoras avançam em direção a uma infraestrutura definida por software, é necessário considerar não apenas o aspecto técnico, mas também os fatores econômicos, estratégicos e sustentáveis — comparando o on-premises com a nuvem, avaliando escalabilidade e pensando a longo prazo.
Preparando-se para o que vem a seguir
O ST 2110 surgiu de um esforço coletivo entre fabricantes, emissoras e entidades de padronização, em um momento em que o mercado ainda estava se formando. Esse alinhamento precoce possibilitou uma transição relativamente fluida para o IP.
Hoje, um movimento semelhante está em curso — desta vez focado não apenas nos formatos de mídia, mas também nos métodos de implantação e operação em ambientes computacionais puros. Resolver esse desafio será crucial para viabilizar a inovação sem comprometer a previsibilidade.
Com colaboração, padronização e uma visão pragmática, o setor poderá desbloquear todo o potencial das arquiteturas híbridas baseadas em IP e posicionar-se para as próximas grandes transformações.


