
Na iminência do presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva assinar o decreto que definirá as tecnologias a serem utilizadas pela TV 3.0, a Prensario desenvolveu uma espécie de manual para explicar as principais tecnologias que podem ser utilizadas no Brasil na nova TV digital que promete atender às demandas do mercado contemporâneo, incorporando conceitos de personalização, imersão e conectividade e a junção do broadcast e o broadband.
A TV 3.0 representa a evolução da TV digital terrestre no Brasil, introduzindo tecnologias de transmissão mais avançadas, maior qualidade de áudio e vídeo, e recursos interativos inéditos. A TV 3.0 torna a TV em Híbrida, onde o broadcast e o broadband se entrelaçam para juntar e desenvolver novas estratégias.
Raymundo Barros, Presidente do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (SBTVD)/Globo, afirma que “enquanto a TV atual coloca os telespectadores como meros observadores, a TV 3.0 os coloca no centro da ação, com a possibilidade de personalização de conteúdo. O espectador irá participar ainda mais nessa nova era da televisão. As interações em redes sociais, comentários e enquetes com programas e a capacidade de influenciar o desenvolvimento de eventos televisivos são apenas algumas das emocionantes possibilidades que a interatividade oferece. A programação não irá pertencer somente à grade linear, mas trará a riqueza de conteúdo e acessibilidade que experimentamos nas plataformas de streaming, sendo moldado por meio das preferências de cada um”.

No fim de 2024 quando o Fórum SBTVD entregou a recomendação de tecnologia para a camada física da TV 3.0 ao Ministério das Comunicações, Barros disse que o Fórum, depois mais de dois anos de estudo e teste, optou pela adoção da camada física do ATSC 3.0, já adotada nos Estado Unidos e Coreia do Sul, onde já existe operação comercial de TV 3.0. Porém com a adição das ferramentas de eficiência espectral e energética MIMO e LDM e ferramenta de identificação do transmissor pelo ar (TxID OTA) para a segmentação geográfica de conteúdos e alertas de emergência que tornam a tecnologia mais moderna e robusta.
Este informe detalha os aspectos técnicos que fundamentam a TV 3.0, abordando os seguintes temas principais que são: Qualidade de imagem e som; Interatividade avançada; Modelos de negócio e impacto no mercado; segmentação geográfica, entre outras,
Qualidade de Imagem e Som
A TV 3.0 traz avanços expressivos na qualidade audiovisual, incluindo uma melhoria substancial na qualidade de transmissão, incorporando tecnologias como resolução 4K e 8K, High Dynamic Range (HDR) e áudio imersivo. Essas inovações visam proporcionar uma experiência mais rica e envolvente para os telespectadores.

Com as mudanças estabelecidas, a TV 3.0 terá suporte para resoluções 4K até 8K (Ultra High Definition – UHD), proporcionando mais detalhes e nitidez.
High Dynamic Range (HDR): tecnologias como HDR10, HLG e Dolby Vision permitem uma faixa dinâmica mais ampla, melhorando contraste e realismo das cores.
High Frame Rate (HFR): permite transmissão a taxas de quadros superiores a 60fps, melhorando a fluidez de cenas rápidas.
Compressão e Codecs
O uso de codecs de compressão avançados, como VVC (Versatile Video Coding – H.266) que integra o conjunto de tecnologias MPEG sob a designação MPEG-I: Coded Representation of Immersive Media. Ele foi desenvolvido para oferecer alta versatilidade, permitindo sua aplicação em diversos cenários com diferentes taxas de bits, resoluções e níveis de qualidade. Entre suas principais utilizações estão o armazenamento digital de mídia, a transmissão televisiva e os serviços de streaming de vídeo.
Áudio Imersivo
O sistema de áudio escolhido foi o MPEG-H, que segundo Gabriel Thomazini (ISS Fraunhofer) e Uirá Moreno (Globo), em texto publicado na Revista da SET, afirmam que ele “Foi projetado para trabalhar com os atuais equipamentos de streaming e transmissão usando fluxos de trabalho baseados em SDI ou IP. Em cenários de produção ao vivo, a autoração do áudio MPEG-H é realizada por um dispositivo chamado “Unidade de Autoração e Monitoramento” (AMAU). Este dispositivo exporta os metadados em tempo real, modulados em um sinal de áudio que é sincronizado com o sinal de vídeo, e usa qualquer um dos formatos comumente utilizados em produções lineares, tais como SDI, MADI ou AoIP”.
Na TV 3.0 com a plataforma DTV+ funcionando, haverá suporte para renderização baseada em objetos, permitindo ajustes individuais para áudio personalizado (por exemplo, destacar comentários esportivos ou escolher entre diferentes comentaristas).
Segmentação geográfica
O DTV+ trará um recurso de programação segmentada por geolocalização, através do identificador TxID, uma tecnologia que utiliza espalhamento espectral inserido no fluxo de dados, para que o receptor identifique o transmissor de sua rede para segmentação geográfica, sem depender de internet.
Interatividade Avançada
Como dito acima, a TV 3.0 integra conceitos de Hybrid Broadcast Broadband TV (HbbTV), combinando transmissão tradicional com internet para recursos interativos como a personalização de conteúdo. Com o DTV+ funcionando, o telespectador poderá, por exemplo, assistir a um conteúdo audiovisual transmitido pela emissora via OTA (On Air) que pode ser enriquecido com conteúdo adicional de realidade virtual transmitido pela Internet. Nesse caso, o telespectador pode utilizar um HMD (Head Mounted Display) para consumir cenas imersivas com vídeos 360 graus sincronizados com outros objetos de mídia e até conseguir ter efeitos sensoriais, já que será possível, utilizando o set-top-box ou a TV para conectar-se a dispositivos IoT (Internet of Things) disponíveis nas residências, tais como lâmpadas inteligentes, difusores de aroma inteligentes, ventiladores inteligentes etc. para desta maneira renderizar efeitos de luz, aroma, vento, calor, frio, vibração, transformando o espaço em um cinema 4D.
Nesse contexto, existe a integração com dispositivos conectados já que haverá compatibilidade com smartphones, tablets e assistentes de voz, o que dará opções de interação direta com comerciais e programas, permitindo compras instantâneas e enquetes ao vivo.
Outro diferencial será a possibilidade de ter Realidade Virtual e Aumentada com streaming de conteúdo 360° e suporte para VR (Virtual Reality). Além do uso de AR (Augmented Reality) para sobreposição de informações adicionais na tela.
Modelos de Negócio e Impacto no Mercado
A TV 3.0 transforma o modelo de transmissão e publicidade já que permite a publicidade segmentada e por target. A primeira, por ar e sem uso de internet, com TxID e transmissão OTA. A segunda, por target com a exibição de anúncios personalizados com base no perfil do usuário, possibilitando maior conversão e engajamento.
Assim teremos uma convergência com OTT, já que haverá integração entre TV aberta e serviços de streaming, criando novos formatos de monetização devido a alternância transparente entre conteúdo linear e sob demanda.
Cronograma de Implementação
O planejamento governamental para migração total para TV 3.0 prevê testes e implementação gradual até 2028. A Globo já anunciou duas estações experimentais que começam a funcionar no fim de abril. Serão duas LightHouses (pequenas estações) para começar a transmitir no fim de abril a partir da torre do Sumaré e da Penha no Rio de Janeiro.
As estações fazem parte das comemorações da Globo dos 60 anos no ar. A primeira terá um transmissor de 3 kW e a segunda de 1kW, ambos compatíveis com a norma, tendo incorporadas a tecnologia Mimo, IDTx, junto com antenas MIMO de 300 MHz. O anúncio foi feito por Carolina Duca, Gerente Sênior de Tecnologia da Globo, durante um keynote realizado pela executiva no SET Sudeste 2025, que se realizou no Rio de Janeiro.
Pela sua parte, o governo junto ao Fórum SBTVD esperam ter uma estação experimental emitindo sinal de TV 3.0 em São Paulo, até agosto de 2025 e outra em Brasília, na Capital Federal, até o final deste ano. Resumindo, a TV 3.0 combina elementos de um ambiente de streaming com o broadcast tradicional, garantindo flexibilidade e eficiência. Ela representa um salto tecnológico que redefine a experiência televisiva, combinando resolução avançada, som imersivo e interatividade. A implementação enfrenta desafios, mas os benefícios são significativos tanto para emissoras quanto para espectadores. O sucesso dessa transição dependerá da cooperação entre indústria, governo e usuários para garantir uma adoção eficiente e inclusiva da nova tecnologia.